#BlackOutTuesday – O dia em que o Instagram apagou as fotos

O apagão do Insta
Hashtag de protesto contra o racismo tomou conta da rede social nesta terça-feira

Há alguns anos o ator americano Will Smith, famoso por protagonizar a série The Fresh Prince of Bel-Air (Um Maluco no Pedaço no Brasil), pronunciou uma frase que retratava a nova realidade que as câmeras de celular estavam trazendo à tona sobre o abuso policial contra negros nos EUA. “O racismo não está piorando, só está sendo gravado agora”. Com essa frase, Will falava ao mundo que tudo o que vinha sendo exportado como realidade de vida dos negros americanos era uma fantasia de Hollywood, e com o passar dos anos os noticiários americanos e internacionais começaram a serem mais e mais bombardeados com registros destes abusos.

Essa maior divulgação expos uma realidade abusiva e imparcial com toda a liberdade e igualdade pregadas pelo que chamamos de american life, ou vida americana, em tradução livre. Mesmo pregando ser uma nação em que todos possuem oportunidades e que valorizam a vida e a liberdade de cada indivíduo, os EUA vem se mostrando, há anos, como uma nação claramente dividida e racista, suprimindo a população afro-americana pela elite branca. E isso se repete em pleno 2020, enquanto o globo se une para superar a ameaça da pandemia de Covid-19.

No dia 25 de maio, Darnella Frazier, que passava por uma rua da cidade de Minneapolis, estado de Minessota, sacou seu celular e começou a gravar uma cena que a deixou estarrecida: um policial branco pressionava seu joelho contra o pescoço de um jovem negro, desarmado e algemado. O motivo, ao que parece, é que George Floyd, o jovem detido, teria tentado efetuar uma compra de cigarros em um supermercado com uma nota falsa de 20 dólares.

Após receber a denúncia no 911, efetuada por um funcionário do local, os policiais chegaram, abordaram e imobilizaram Floyd, deitando-o no chão e o algemando. Mas nesse tempo, um dos policiais colocou seu joelho sobre o pescoço de George e o manteve assim, pressionado, por cerca de 7 minutos, dos quais por 4 não apresentou nenhum movimento físico, já desmaiado. No vídeo é possível ver o policial Derek Chauvin ignorando os pedidos de “socorro” e “me deixe respirar” feitos por Floyd, bem como a multidão que gritava “vocês vão mata-lo” e “ele não está bem”, entre outras coisas. O caso foi comparado à morte de Eric Garner, em 2014, um homem negro desarmado que repetiu "Não consigo respirar" enquanto estava sendo sufocado pelos policiais presos.

Após o incidente, um segundo vídeo mostra Floyd sendo removido de seu veículo e um outro vídeo, de uma câmera de segurança e disponibilizado à mídia, mostra toda a abordagem sem resistência de George em nenhum momento.

Em 26 de maio, a chefe da polícia de Minneapolis, Medaria Arradondo, anunciou que os policiais foram postos em licença e alguns dias depois os quatro oficiais que responderam à chamada foram demitidos. Naquele dia, o Federal Bureau of Investigation (FBI) anunciou que estava analisando o incidente e as imagens das câmeras corporais dos policiais foram entregues ao Departamento de Apreensão Criminal de Minnesota.

O caso repercutiu pela rede social Facebook, se tornando um viral e, somados a dois outros assassinatos de negros americanos nas últimas semanas, contribuíram para o crescimento de tensões.

O vídeo do assassinato de Ahmaud Arbery, 25 anos, em 23 de Fevereiro de 2020, começou a circular no início de maio. Arbery estava correndo num bairro nos arredores de Brunswick, na Geórgia, quando foi morto a tiro por dois homens brancos, um pai de 64 anos e o seu filho de 34, que o perseguiram num carro. A agressão foi gravada e os assassinos detidos e acusados de homicídio em 7 de maio, mas apenas depois de as filmagens terem se tornado públicas

Algumas semanas após a morte de Arbery, Breonna Taylor, uma jovem de 26 anos certificada pelo EMT, foi morta a tiros na cama, em sua casa, em 13 de março, por agentes da polícia que estavam cumprindo um mandado de busca e apreensão de narcóticos.

Todos esses casos sequenciais ativaram uma onda de protestos mundo à fora por justiça e um maior respeito à população negra. Movimentos antirracismo utilizando a tag #BlackLiveMatters se espalharam e, nesta terça-feira, 02 de junho, várias celebridades e figuras públicas nacionais e internacionais, bem como usuários de diversas redes subiram a tag #BlackOutTuesday, marcando o dia como uma importante mensagem sobre as fortes ondas de racismos que permeiam pelo mundo.

JOÃO PEDRO 
A tag subiu no Brasil e ganhou apoio da população, que relembrou casos similares como o da vereadora carioca Marielle Franco e o recente caso do jovem João Pedro, baleado e morto durante operação das polícias Federal e Civil no Complexo do Salgueiro, no Rio de Janeiro. João Pedro levou um tiro após os policiais chegarem no local atirando e jogando granada, e o jovem tentou se esconder pulando um muro, quando foi confundido e atingido. O caso reacendeu o debate sobre um preconceito cultural nacional, no qual o negro é sempre marginalizado somente pela cor de sua pele.

Estes casos revelam a desigualdade de respeito e toda a opressão que a população negra sofre em diversos países, e nos faz questionar a eficiência das políticas públicas de inclusão social e equidade entre diversas minorias. Novos debates e ações devem buscar melhorar a inserção do negro em nossa sociedade, bem como reforçar o respeito e mudar os conceitos preconceituosos sobre estereótipos, que são as bases de todos os casos de assassinato e hediondas ações que permeiam por todas as redes, diariamente, para que as câmeras dos celulares sejam utilizadas não para registrar mais o racismo, mas para revelar uma nova equidade social para todos.


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